minha poesia é muda
vento que enxuga
as lágrimas da natureza
é ela que sussura
quando eu grito, surdo,
a fome em cima da mesa
eu quero é botar
meu tanque na rua
brincar, botar pra gemer
e ele respondeu:
minha poesia é muda
vento que enxuga
as lágrimas da natureza
é ela que sussura
quando eu grito, surdo,
a fome em cima da mesa
eu quero é botar
meu tanque na rua
brincar, botar pra gemer
Voz na panela do mundo
Luz que desvela véus
Mulher fatal e menina
Tetas eretas e repletas
Leite na cara do Brasil
Filha do Senhor da Terra
Totem tropical
Sarça ardente que proclama: meu nome é Gal.
Contemplo um lago borbulhante
não de água: sêmen e sangue;
inacessível a toda cultura –
mas dentro dorme a criatura.
Bóreas semeia no lago a heresia:
lança no caldo um desejo (artemísia)
e a criatura embebida convulsa
e vê que sonhou que sonhava;
alecrim que de todos dichava
ser, no entanto, só erva rasteira:
bela, daninha, banal e solteira.
Sem pranto nem espanto emerge
despelada criatura diverge:
sou caçador ou pastor? Poeta.
01/08/2022
17/05/22